sábado, 20 de março de 2010

MARROM ESCARLATE

a Luiz Santiago.

Numa noite fria de nevoeiro

Um anjo ansioso desce

Da Lua cinza de outono.

Em sua queda, suas asas batiam desordenadas

Assim como seu coração apressado.

Quando bruscamente chega ao chão

Sente na pele as folhas secas que, outrora

Verdejantes, enfeitavam a flora.

Observa, retrai, fraqueja e observa novamente.

Um vazio o domina por inteiro neste momento,

Tenta chorar e nem sequer as lágrimas

O acompanha. Procura Deus, e a cada busca

Uma derrota. Deus não estava lá!

Estarrecido pelo abandono de seu Mestre,

Inundado por um vazio colossal

As estalactites do medo pingavam gota a gota

Um líquido marrom escarlate sobre sua esperança esmeralda.

Silenciou-se. E num momento introspectivo de pensamentos,

Em seu existencialismo supremo,

Decidiu, assim mesmo de repente,

Deixar de ser anjo, assumir uma forma menos divina,

Entretanto, mais viva!

Primeiro, arrancou-se as asas friamente

Cruzando os braços, cada mão segurando uma asa

E as puxou num momento de Ira do mais alto calão.

Coisa que nunca sentira na vida. Já não podia mais voar.

Depois foi a vez dos olhos. (um olho de anjo pode ver

Muito mais além, precisava perder esse dom também!)

Então, usando seus dedos macios, cegou-se arrancando

A luz divina dos olhos, não via mais o belo...

E, por fim, com um grito ecoante, vazou de sua alma

As qualidades: Compaixão, Caridade, Ternura e Humildade,

Todas juntas de mãos dadas ascenderam novamente à Lua Cinza.

Andou por longas noites floresta adentro,

E em seu semblante pareciam-lhe cravados mil anos.

O ar cada vez mais úmido e sujo inflava-lhe os pulmões

Com Carbono e Hidrogênio, lacrimejava e tossia e em sua

Tosse exalava o fogo fátuo dos pântanos.

Seus pés, agora rachados, afundavam na lama fria e suas unhas, que

Incrivelmente já estavam enormes, cavavam covas enquanto andava.

Já nem lembrava mais quem era ou quem foi um dia...

Só parou de andar quando, a sua frente, encontrou um rio de águas fétidas

E neste rio, ao olhar seu reflexo nas águas negras, não conseguia reconhecer-se.

E quando, num momento aterrador, percebeu em que criatura tinha se tornado,

Tornara-se humano!

Desesperado, num salto olímpico, afogou-se nas águas podres que nelas refletiam

Seu rosto e agora também a Lua cinza e simplesmente desejou ter asas para voar

Até aquele grande astro que do alto ofuscava-lhe os olhos semi-cegos.

terça-feira, 16 de março de 2010

Presente à Vida

Ofereço-lhe esta negra pérola. Vós que sois uma professora a todos nós: Vida! E daqui pra frente, deixe-me coordenar o que tenho; sozinho. Apenas eu, Deus e o Diabo. E como dizem por ai, três já "é" demais...

Bilhete Postal
Ilustre professor de Carta Aberta: - Almejo
Que uma alimentação a fiambre e a vinho e a queijo
Lhe fortaleça o corpo e assim lhe fortaleça
As mãos, os pés, a perna et coetera e a cabeça.
Continue a comer como um monstro no almoço
Inche como um balão, cresça como um colosso
E vá crescendo, vá crescendo e vá crescendo,
E fique do tamanho extraordinário e horrendo
Do célebre Titão e do Hércules lendário;
O seu ventre se torne um ventre extraordinário,
Cheio do cheiro ruim de fétidos resíduos,
As barrigas então de cinqüenta indivíduos
Não poderão caber na sua ampla barriga;
Não mais lhe pesará a desgraça inimiga,
O seu nome também não será mais Antonio.
Todos hão de chamá-lo o colosso, o demônio,
A maravilha das brilhantes maravilhas.
As hienas carniçais, as leoas e as novilhas,
Diante do seu vigor recuarão, e diante
Do estribado metal de sua voz atroante
Decerto correrão mansas e espavoridas.
Se as minhas orações forem, pois, atendidas,
O senhor há de ser o Teseu do universo.
Seja um gigante, pois; não faça porém, verso
de qualidade alguma e nem também me faça
Artigos tresandando a bolor e a cachaça,
Ricos de incorreções e de erros de gramática,
Tenha vergonha, esconda essa tendência asnática,
Que somente possui o seu cérebro obtuso -
Esconda-a, e nunca mais se exponha a fazer uso
Da pena, e nunca mais desenterre alfarrábios.
Os tolos, em geral, são tidos como sábios,
Que sabem calar-se e reprimir-se sabem,
O senhor é papalvo e os papalvos não cabem
No centro literário e no centro político.
Respeite-me, portanto!

O Poeta Raquítico.

sábado, 13 de março de 2010

Mágoas do Miserável I

Hoje, treze de março no ano de nosso Senhor (não é assim que se diz?) cá estou apavoradamente melancólico, já me desseram que melancolia é uma maneira poética de tristeza mas, isso é apenas teoria. O importante é que assim estou; sinto-me um inútil, um pedaço de pvp reciclado cinco vezes esperando ser deconposto pela natureza e isso leva tempo...
Há tanta gente que me quer bem, assim como também as quero. E por que isso não me basta? Mas que inacreditável inquietação que me acabrunha! Essa sombra bucólica sob meus calcanhares que não me deixa em paz.... Paz... ah a Paz... Define-a, por favor!

Sei, poderia me argumentar inúmeras coisas que tenho de bom, assim como eu posso dizer as que tenho de ruim... Até então tudo bem, mas e ai? Só? É isso que é viver? Esse nosso Deus planejou assim? No famoso ''tocando com a barriga''? E se depende de nós, como se faz quando não tem por onde ir? Esperar a hora certa? E quando é essa hora? Quem estipula isso? Deus? O Diabo? Quem? Quem? ...

Estou numa crise espiritual muito grande, há uma mágoa tenebrosa me açoitando.
Isso me lembra Augusto dos Anjos: " (...) Magoaram-te meu pai? / Que mão sombria, / Indiferente aos mil tormentos teus / De assim magoar-te sem pesar havia?! (...)" É, que mao sombria? A mão de quem amo, dos muitos que amo e confio... Jogaram sal em mim e sinti-me como as lesmas que matei no sal quando criança... Será isso um pagamento?

Seria eu, uma lesma?
Dentro de mim tem chuva e vento... Tomentas que giram e ja faz tempo...
Cheguei a tal ponto de mágoa que as palavras perderam seu poder. Quanto vale uma promessa? Até onde isso pode ser verdade? Entende? Sabe, as vezes paro e penso e de pensar me perco no que não encontro...
A vida pede certos sacrifícios de nossa parte... E desde quando a vida se tornou uma deusa pagã? Preciso mesmo sacrificar o que gosto para ter algo que posso denominar de felicidade?

Pode me chamar de pessimista! Não ligo. Pode me chamar de viado; não me importo! Pode escarrar seu catarro tuberculoso em minha face; Foda-se! A verdade é que estou cansado demais pra me importar com tudo isso... Cansado, cansado... Deveras!

O mundo inteiro pode me repudiar, à vontade! Mas eu, não farei isso. E é isso que me importa!
Egoísta? Ególatra? Egocentrista? Ego Ego Ego, do latim: Eu.

Eu? È, eu... Escute(leia): EU naõ sou assim. Sim me importo com você, sim você pode me magoar, sim está nas suas mãos muitas vezes essa tal felicidade que me pertence....

O meu maior erro é achar que posso estar certo...

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Mentiras

Todo mundo mente! Não existe um ser na face desta terra miserável que não tenha mentido. As crianças já nascem com a mentira no estômago, assim como uma tênia. É como, os vermes que nos devoram no pós-vida; eles já existem em nós, ficam dentro de nossas víceras esperando nossa morte e então: DEVORAR! A mentira é assim: espera uma oportunidade e cá está ela nos envolvendo em cabulosas ''estórias'' mirabolantes...
O bom mentiroso, o formado em mentirologia, com bacharel e todas os brasões das Academias tem que realmente acreditar no que diz, mesmo sendo absurdo! Me dói saber que há pessoas assim ainda. Claro, minto também! Porém eu não consigo me colocar numa posição de uma mentira para conquista, sei lá... Jamais diria que sou isso só pra conquistar alguém... Pelo menos não por enquanto, talvez amanhã, mas até hoje não!

E não venha me dizer que sente muito, tiveste todo o tempo do mundo para voltar atrás...
Mas não se preocupe com este maldito que cá escreve. Como diria Homero: "Pois a flecha não fere os covardes."


ELA


(presente ao natalício de E. O.)

I

Absurdo!

Explosão de máxima brancura,

Como num conto, ela, toda desenhada,

Desafia o mundo com sua ternura...

É... Fez sua mãe esperar acanhada,

Sua mãe, que aguardava desde janeiro

Com a força de um paquiderme rubro,

Deu a luz a este cordeiro

Que veio ao lar a 26 de outubro,

Para conquistar o mundo inteiro!

II

Matemático!

Num sincronismo homogêneo,

Ela andava pelas ruas, num vazio estéreo

Tentava se completar procurava a si

Nas câmaras temporais alheias...

Não! Ainda não via que a matemática

Da vida não consiste em algarismos

E tangentes... E que na verdade era

Algo mais simples, pura soma!

Dividir para completar!

E quando,

Num gesto verdadeiro,

Trouxe também ao mundo

O seu cordeiro...

III

Permanente!

Ela se tatuou inteira,

Toda coberta de tintas,

Símbolos, estórias e verdades...

Faceira, menina perdida...

Aprendeu as duras penas

A lógica da vida...

IV

Continental!

Trancada, violenta, suprema!

Rangia os dentes com tamanha fúria

Que os maiores dos maremotos teriam inveja!

Nos despojos desta guerra,

Monstruosos e medonhos pesadelos

Lhe atormentava...

E numa ânsia incoercível...

Almejava ter os céus...

Queria ter asas

Queria tocar o universo,

Desejava sentir entre os dedos

O frio das constelações

Mas a sua volta...

Apenas negros dragões...

V

Inevitável!

E no desespero do ultimo momento

Ela, que tanto derramou seu pranto,

Ela, a menina de máxima brancura,

Desenhada, toda pura,

Explode, como um vulcão de alma

Da mais verossímil verdade

Sobe com asas decidas pela própria eternidade...

Sublima-se tão rápido,

Numa escada cúbica, como num andaime...

É, suba menina... Chegou a sua hora,

Suba! Suba! Suba Elaine!

E ela tocou os céus,

Em delícias...

Estava em paz, estava feliz...

Sentia das constelações as mais

Sensíveis carícias!

Um canto para um silêncio

Enfim, que seja este o derradeiro canto meu para todo e qualquer silêncio que eu ou alguém venha causar...

obs.: Como é de fato perceptível de quem me conhece, meu poeta favorito é o Augusto, porém o poema de minha vida foi escrito por outro, perdoe-me mestre!

...

Cântico Negro - (José Régio)

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


sábado, 27 de fevereiro de 2010

"Et Coetera"

Eis-me numa ânsia colossal para debulhar-me em palavras...
Penso que meu caríssimo Mário Quintana tem razão, muitas vezes é bem melhor a saudade da coisa amada do que ela em si propriamente dita... Na saudade nada tem defeito, feiúra ou mau cheiro apenas está repleta de saudosos líquidos leitosos de ternura.
Hoje vejo o quanto mudei ao longo de alguns anos... Acabo de passar por uma situação extremamente terrível que uns tempos atrás me causaria semanas de pranto inconsolável, todavia estou forte e até sorrindo... Devo tudo isto à uma força ganha de uma amor literalmente enterrado! (Obrigado!)
Eu queria dizer muitas coisas ao personagem que me causou isso, mas será que vale a pena? Creio que não! Tudo que penso acaba ficando onde nasceu, minha mente. E quando vem à boca, por vontade minha, fica enterrado no mulambo de minha língua paralítica... (obviamente, um tributo ao meu ''outonístico'' Augusto dos Anjos)